Estava eu me divertindo com um polígrafo para uma cadeira de história econômica QUANDO, de súbito, desce AQUELA luz que todos nós perceptores da vida já bem conhecemos, como se o espírito do próprio Tony Judt estivesse descendo do paraíso (já? Tony Judt tendo recém falecido, agosto de 2010) e pedindo pra tomar um café comigo (mania de fazer alusão ao título do blog em todas as postagens possíveis) e explicar qualquer coisa que talvez ele soubesse sobre a JUVENTUDE.
Sobre o surgimento da expressão "juventude" na Europa Ocidental no final dos anos 50:
"Usando roupas escuras e apertadas - por vezes de couro, por vezes de camurça, sempre de corte arrojado, e de aparência um tanto ameaçadora-, os blousons noirs (na França), os Halbstarker (na Alemanha e na Áustria) ou os kinknuttar (na Suécia), à semelhança da "juventude transviada" de Londres, exibiam comportamento cínico e indiferente, algo entre Marlon Brando e James Dean. No entanto, apesar de esporádicos surtos de violência, a principal ameaça desses jovens e suas roupas era à noção de decência dos mais velhos".
"Ter roupa específica, de acordo com a faixa etária, era importante como afirmação de independência e mesmo de rebeldia. (...) os jovens gastavam bastante dinheiro em roupas, mas gastavam ainda mais - muito mais- em música". Música pop mais especificamente, já que o jazz se viu marginalizado, sendo apreciado "geralmente, indivíduos com educação formal, burgueses ou boêmios (ou, muitas vezes, ambos)".
Lendo todas essas passagens, meus olhos começaram a soltar faíscas, tornando-se, eventualmente, foguinhos de artifício (sim, qualquer coisa como o clipe de Two Weeks do Grizzly Bear). PORÉM o CLICK veio com a passagem seguinte:
"Os adolescentes europeus do final dos anos 50 e início dos anos 60 não pretendiam transformar o mundo. Tinham crescido com segurança e certa prosperidade. A maioria queria apenas ter uma aparência diferente, viajar mais, tocar música e comprar coisas".
A luz desceu e invadiu toda a escrivaninha, e eu me enchi das mais diversas sensações de satisfação. Não simplesmente porque tinha ENTENDIDO o que Godard quis criticar em Masculino, Feminino e todo o processo histórico que tinha gerado aquela situação, MAS TAMBÉM porque notei qualquer semelhança com a dita "juventude" de hoje.
Há tempos já queria tentar achar uma definição adequada e comum pra essa massa de joverns (vale ressaltar: "massa" reduzida, com acesso a internet e renda suficiente para que se entedie facilmente), e foi Tony Judt, observando as características da geração jovem européia dos anos 50 e início dos 60, que conseguiu resumir absolutamente tudo.
Há certas diferenças, porém. Elas virão num futuro post, quem sabe.
Mostrando postagens com marcador escritos de outros mais mestres. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador escritos de outros mais mestres. Mostrar todas as postagens
quarta-feira, 23 de março de 2011
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
Achados:
Segundo Chiang, o truque estava em Fernão deixar de ser ver aprisionado dentro de um corpo limitado cujas asas abertas abrangiam a distância de um metro e cuja eficiência podia ser traçada num mapa.
O truque estava em saber que sua verdadeira natureza vivia tão perfeita como um número não escrito, em toda parte e ao mesmo tempo, através do espaço e do tempo.
- Esqueça a fé - dizia-lhe Chiang repetidamente. - Você não precisa de fé para voar; precisou, sim, compreender o que era voar. Isto é a mesma coisa. Tente outra vez.
***
Nous ne pouvons plus choisir nos problémes. Ils nous choisissent, l'un après l'autre. Acceptons d'être choisis.
O truque estava em saber que sua verdadeira natureza vivia tão perfeita como um número não escrito, em toda parte e ao mesmo tempo, através do espaço e do tempo.
- Esqueça a fé - dizia-lhe Chiang repetidamente. - Você não precisa de fé para voar; precisou, sim, compreender o que era voar. Isto é a mesma coisa. Tente outra vez.
***
Nous ne pouvons plus choisir nos problémes. Ils nous choisissent, l'un après l'autre. Acceptons d'être choisis.
Marcadores:
escritos de outros mais mestres
terça-feira, 16 de novembro de 2010
só mais um bop literário
“A visão da liberdade da eternidade que eu tive e que todos os santos das ermidas nas florestas tiveram serve para pouca coisa nas cidades e ainda mais nas sociedades em guerra como a nossa – (...) Tempo suficiente para morrer na ignorância, mas agora que estamos vivos o que vamos celebrar, o que vamos dizer? O que fazer? O quê, carne orgulhosa no Brooklyn e em toda parte, e estômagos enjoados, e corações suspeitos, e ruas duras, e conflitos de idéias, toda a humanidade em chamas com o ódio – A primeira coisa que eu notei quando cheguei em São Francisco com a minha mochila e as minhas mensagens foi que todo mundo estava vadiando – desperdiçando tempo – não sendo sério – rivalidades triviais – timidez perante Deus – até os anjos brigando – só sei de uma coisa: todo mundo é um anjo, eu e Charlie Chaplin enxergamos as asas (...) você pode até ser um intelectual escroto nas capitais européias mas eu vejo as grandes tristes asas invisíveis em todos os ombros e me sinto mal porque elas são invisíveis e inúteis aqui na terra e sempre foram e só o que a gente está fazendo é brigar enquanto a morte não chega-”
“Por que mais viver senão para discutir (pelo menos) o horror e o terror da vida, meu Deus como nós ficamos velhos e alguns de nós ficam loucos e tudo muda de maneira pavorosa – é o pavor da mudança que nos machuca, assim que as coisas esfriam e aprontam elas desmoronam e queimam-“
Anjos da Desolação (Kerouac)
“Por que mais viver senão para discutir (pelo menos) o horror e o terror da vida, meu Deus como nós ficamos velhos e alguns de nós ficam loucos e tudo muda de maneira pavorosa – é o pavor da mudança que nos machuca, assim que as coisas esfriam e aprontam elas desmoronam e queimam-“
Anjos da Desolação (Kerouac)
Marcadores:
conversas no Kaffee MM,
escritos de outros mais mestres
sábado, 4 de setembro de 2010
"
Sabina despreza a literatura em que o autor revela toda a sua intimidade, e também a de seus amigos. Quem perde sua própria intimidade perde tudo, pensa Sabina. E quem a ela renuncia conscientemente é um monstro. Por isso Sabina não sofre por ter de esconder seu amor. Ao contrário, para ela esta é a única forma de viver 'dentro da verdade'.
"
Sabina despreza a literatura em que o autor revela toda a sua intimidade, e também a de seus amigos. Quem perde sua própria intimidade perde tudo, pensa Sabina. E quem a ela renuncia conscientemente é um monstro. Por isso Sabina não sofre por ter de esconder seu amor. Ao contrário, para ela esta é a única forma de viver 'dentro da verdade'.
"
terça-feira, 17 de agosto de 2010
es könnte auch anders sein
Vez ou outra, quando se está perdido em divagações profundas e sinceras, dá-se de cara com alguma verdade reveladora. Ela não simplesmente brota da nossa cabeça, na maioria das vezes; mas existem mecanismos que nos ajudam a encontrá-la. A disposição das árvores vista de um ângulo diferente no final da tarde, uma melodia diferente de qualquer coisa antes vista, ou simplesmente passagens de um livro velho e amarelado, que aparentava (só aparentava) já ter visto passarem seus dias de glória há muito. É o caso de “A Insustentável leveza do ser”, que leio agora, e que me fez arregalar os olhos de uma maneira LINDA e INÉDITA. Sinto-me no dever de parafrasear alguns trechos INTERESSANTÍSSIMOS, que merecem ser descobertos por qualquer um disposto a sentir um filete de sangue correr quente e vibrar nervoso e acelerar o compasso do coração melodia tão bonita que o nosso corpo rotineiramente produz. Com vocês, Milan Kundera:
“Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que faz com que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo “esboço” não é a palavra certa, porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada. (...) Einmal ist keinmal, uma vez não conta, uma vez é nunca. Não pode viver senão uma vida é como não viver nunca.”
“(...) chegou à conclusão de que a história de amor de sua vida não estava colocada sobre ‘Es muss sein! (precisa ser assim)’, mas antes sobre “Es könnte auch anders sein”: isso poderia muito bem ter acontecido de outra maneira...”
“Depois que o homem aprendeu a dar nome a todas as partes de seu corpo, esse corpo o inquieta menos. Atualmente, cada um de nós sabe que a alma nada mais é que a atividade da matéria cinzenta do cérebro. A dualidade da alma e do corpo estava dissimulada por termos científicos; hoje, isso é um preconceito fora de moda que só nos faz rir.
Mas basta amar loucamente e ouvir o ruído dos intestinos para que a unidade da alma e do corpo, ilusão lírica da era científica, imediatamente se desfaça.”
“Ela tentava ver-se através do próprio corpo. Por isso, passava longos momentos em frente ao espelho. (...) Não era a vaidade que a atraía para o espelho, mas o espanto de descobrir-se. Esquecia que tinha diante de si o painel dos mecanismos psíquicos. Acreditava ver sua alma se revelando sob os traços do seu rosto.”
“Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que faz com que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo “esboço” não é a palavra certa, porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada. (...) Einmal ist keinmal, uma vez não conta, uma vez é nunca. Não pode viver senão uma vida é como não viver nunca.”
“(...) chegou à conclusão de que a história de amor de sua vida não estava colocada sobre ‘Es muss sein! (precisa ser assim)’, mas antes sobre “Es könnte auch anders sein”: isso poderia muito bem ter acontecido de outra maneira...”
“Depois que o homem aprendeu a dar nome a todas as partes de seu corpo, esse corpo o inquieta menos. Atualmente, cada um de nós sabe que a alma nada mais é que a atividade da matéria cinzenta do cérebro. A dualidade da alma e do corpo estava dissimulada por termos científicos; hoje, isso é um preconceito fora de moda que só nos faz rir.
Mas basta amar loucamente e ouvir o ruído dos intestinos para que a unidade da alma e do corpo, ilusão lírica da era científica, imediatamente se desfaça.”
“Ela tentava ver-se através do próprio corpo. Por isso, passava longos momentos em frente ao espelho. (...) Não era a vaidade que a atraía para o espelho, mas o espanto de descobrir-se. Esquecia que tinha diante de si o painel dos mecanismos psíquicos. Acreditava ver sua alma se revelando sob os traços do seu rosto.”
Marcadores:
conversas no Kaffee MM,
escritos de outros mais mestres
quarta-feira, 21 de julho de 2010
soneto de carnaval, v-d-m
Distante o meu amor, se me afigura
O amor como um patético tormento
Pensar nele é morrer de desventura
Não pensar é matar meu pensamento
Seu mais doce desejo se amargura
Todo o instante perdido é um sofrimento
Cada beijo lembrado uma tortura
Um ciúme do próprio ciumento.
E vivemos partindo, ela de mim
E eu dela, enquanto breves vão-se os anos
Para a grande partida que há no fim
De toda a vida e todo o amor humanos:
Mas tranqüila ela sabe, e eu sei tranqüilo
Que se um fica o outro parte a redimi-lo.
O amor como um patético tormento
Pensar nele é morrer de desventura
Não pensar é matar meu pensamento
Seu mais doce desejo se amargura
Todo o instante perdido é um sofrimento
Cada beijo lembrado uma tortura
Um ciúme do próprio ciumento.
E vivemos partindo, ela de mim
E eu dela, enquanto breves vão-se os anos
Para a grande partida que há no fim
De toda a vida e todo o amor humanos:
Mas tranqüila ela sabe, e eu sei tranqüilo
Que se um fica o outro parte a redimi-lo.
Assinar:
Postagens (Atom)